O dia em que parei de stalkear.

Admito, sou stalker profissional.

Qualquer pessoa que precisasse de informações sobre a vida de alguém me procurava, pois eu, provavelmente conseguiria encontrar. Tenho certeza que seria contratada pela equipe do Catfish ou do CSI. E também pela do FBI, pois meus perfis sempre foram extremamente secretos e fechados (ou fake), impossibilitando o stalk alheio.

Stalkeava pessoas aleatórias, esmiuçava cada curtida numa foto de três verões atrás até descobrir quem era a namorada do cara naquela época. Já tive acesso a históricos do saudoso MSN e descobri até o que nem queria sobre a vida de quem nem me importava.
Descobria a data da morte da avó, o local das primeiras férias, fotos da infância postadas em perfis de amigos (aquelas que todo mundo oculta por motivos de: vergonha), fatos importantes e secretos, como uma cirurgia ou um caso extraconjugal.

E as novas amizades/seguidores? Eram motivo pra alerta e pra stalkear aquelas pessoas, para descobrir onde tinha surgido aquela conexão. No stalk descobri que meu ex (na verdade todos meus ex) estava me traindo e uma vez, quando estava muito empenhada, descobri a hora de nascimento de uma pessoa quando investiguei, cinco anos depois, comentários do aniversário dela de 2009. Eu mesma me impressionava.

Claro que tanto empenho era multiplicado por mil quando se tratava dos crushs, fossem eles atuais, ex ou futuros crushs. Eu sabia de tudo quanto fosse possível descobrir pelas redes e me fazia de surpresa quando a pessoa me contava alguma informação que eu já tinha descoberto por meus meios. Além de stalker, atriz.
Até que comecei a achar tudo muito chato.

Não sei você, mas eu sou uma pessoa que se entedia muito fácil. Preciso mudar minha rotina e meus hábitos com certa frequência pra não enjoar de tudo e isso também acontece com pessoas. Este meu defeito não era em nada ajudado pelo hábito de stalkear, uma vez que se eu já sabia tudo, ou boa parte da vida da pessoa, não me interessava tentar conhecê-la e ouvir o que ela tinha a me dizer. Além de que eu já conhecia várias pessoas que nem sabiam de minha existência. Não havia a surpresa de encontrar alguém em algum evento, pois eu já sabia que ela tinha confirmado a presença. Tudo ficou muito sem graça, monótono, e eu gosto de ser surpreendida.

Sem contar que o stalk passou a me machucar. Muitas vezes sabia o que ia encontrar, sabia que não ia gostar do que veria, mas stalkeava. Perdia muitas horas nessa atividade e descobria que havia na vida do ser stalkeado novos amores, novos hábitos e nenhum espaço para mim. Descobria que a vida das pessoas era muito mais interessante que a minha. Não consigo mensurar quantas vezes saí de um perfil querendo morrer, me sentindo a pior entre as pessoas, a mais desvalorizada e sem amor. Stalkear passou de interessante para humilhante.

Por que fazia isso comigo?

Atualmente mantenho ativa minhas redes sociais, mas não costumo usá-las com frequência. Minhas redes fakes foram todas deletadas por mim mesma, pois quando usava imediatamente minha mão coçava para entrar no perfil das pessoas e fuçar suas vidas. Pensei bastante e decidi que não faria aquilo. Não me acrescentaria em nada e eu não estou com tempo para perder com o que não me acrescenta.
Hábitos que vem com a tecnologia podem ser abandonados com uso do bom senso. Se me dói, paro. Se algum fato for interessante e relevante eu saberei da boca da própria pessoa.

Pra muita gente esse hábito é saudável, divertido e por muito tempo pra mim foi, mas comecei a achar mais coisas negativas que positivas e isso me fez refletir se estava valendo a pena.

O que eu ganho sabendo tanto da vida de todo mundo? Nada além de tédio e comparações injustas. E ainda pulo etapas do conhecimento e das relações. Sem contar que passei a levar a sério aquela vida fantástica das redes sociais. Todos sabemos que não há 100% de verdade em nenhuma foto postada, mas no meio dos meus ataques, eu comparava minha vida com a perfeição da vida das pessoas.

Compliquei o que era simples e precisei parar com isso.

A partir de hoje quero conhecer as pessoas da forma tradicional: pelas histórias que elas tem pra contar.

Se vai dar certo e se vou conseguir eu não sei, mas sigo vivendo.

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